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A intolerância no caminho da escola

Pesquisas mostram que casos de agressão e violência no ambiente escolar são mais comuns do que se pensa. E que já está mais do que na hora de a escola reagir, para o bem dos alunos

A violência na escola é um problema que, cada vez mais, preocupa quem lida com educação. Vez por outra, casos ganham visibilidade e suscitam discussões e análises ao chegarem à imprensa. Mas como diversas outras concorrências não ultrapassam os muros escolares, há até pouco tempo era difícil ter um diagnóstico mais preciso do alcance do problema.

Duas pesquisas recentes, no entanto, mostram que o comportamento dos jovens é um dos principais desafios das escolas nos dias de hoje. Uma delas, feita pela Ong Plan Brasil e divulgada este ano, constatou que quase 30% entre cerca de 5 mil alunos de 6º ao 9º anos entrevistados em todas as regiões do país, sofreram algum tipo de agressão na escola. E não se trata de algo esporádico. Dos estudantes entrevistados, 17% estiveram envolvidos em algum caso de bullying, que se caracteriza por agressões físicas ou verbais realizadas de forma recorrente.

E não é por acaso que o bullying atinge tantos estudantes. Um dos principais combustíveis para as perseguições e atitudes agressivas também está presente no cotidiano escolar. Em outro estudo nacional, divulgado em 2009 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), de São Paulo, foi constatados que em 99% das escolas brasileiras, estudantes, professores ou diretores manifestaram alguma espécie de preconceito contra minorias.

São dados que mostram dois quadros preocupantes. De um lado, os alunos parecem ser, cada vez mais, vítimas em potencial da intolerância, nas instituições educacionais. De outro lado, a escola tem mostrado, no mínimo, dificuldade em se firmar como um dos mais importantes espaços de construção de valores como respeito e amor ao próximo.

É até natural que a violência que atinge a sociedade sob as mais diversas formas alcance o ambiente escolar. Afinal, como diz a professora Maria Lucia Oliveira, da Faculdade Federal de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), o processo de socialização promovido pela escola não se dá em um vácuo de influências. “Ela é parte da sociedade e, portanto, relaciona-se às tensões, aos conflitos de valores, às contradições sociais”, diz a educadora.

O que preocupa, no entanto, é que a formação educacional não tem conseguido dar as respostas que a sociedade espera. Na pesquisa da Plan Brasil, 70% dos estudantes entrevistados responderam ter presenciado cenas de agressões entre colegas. Ou seja, pelo estudo, a ocorrência do bullying parece não ser apenas um desvio comportamental de uma pequena parcela dos alunos mas, sobretudo, é consequência de um clima de violência generalizado nos ambientes educacionais.

Para complicar o quadro, há uma disputa, no mínimo, desigual. De um lado, as escolas são cada vez mais pressionadas a a prepararem o trabalho e o ingresso nas universidades. Com isto, falta tempo para atividades que fortaleçam o convívio e o respeito às diferenças.

De outro, como salienta a professora Maria Lucia Oliveira, um contexto social que bombardeia jovens e crianças com mensagens de incentivo à competição e ao individualismo, muitas vezes, serve de combustível para práticas que vão contra as boas atitudes que os professores tentam fortalecer. “Incentiva-se a padronização de costumes em detrimento da diversidade. Cultua-se a força, o poder de dominação, mais do que o diálogo e a sensibilidade”, destaca a especialista.

ESFORÇO DE CONSCIENTIZAÇÃO DEVE SER PERMANENTE, DIZEM EDUCADORES

A professora da UFF ressalta que, para quadros complexos como a questão da violência nas escolas, não há fórmulas mágicas ou receitas fáceis para resolver o problema, em especial, diante da ausência de políticas públicas que valorizem a educação. Mais do que buscar saídas pontuais, ações que não tenham continuidade, segundo a educadora, é fundamental bater sempre na tecla do bom exemplo junto aos jovens e adolescentes.

“Considerando seus limites e possibilidades, é importante a escola afirmar cotidianamente sua luta permanente pela justiça social, pela igualdade de direitos, pela valorização da diversidade, pela acessibilidade. Atividades que valorizem a reflexão crítica, a convivência, a expressão criadora, a participação política, são fundamentais”, frisa a doutora.

A professora do Departamento de Pós-Graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Míriam Paura, defende a mesma linha de ação. Ela também entende que as saídas para enfrentar a violência e a intolerância devem ser encontradas em uma discussão da qual participem professores, equipes pedagógicas, alunos e pais. Ela também destaca a importância de projetos que incentivem atitudes cidadãs.

“É preciso oferecer práticas dentro da escola que permitam maior entrosamento com colegas e realizar atividades mais dinâmicas para trabalhar pedagogicamente estes problemas. Isto não é fácil. Não se faz de uma hora para outra, mas é necessário”, comenta Míriam Paura.

Diante de casos de agressão entre estudantes, é comum surgir o debate sobre se a escola deve ter postura mais disciplinadora. Para Míriam Paura, é importante que a instituição de ensino deixe claro para sua comunidade que há regras que precisam ser respeitadas. “Não pode ser um espaço onde cada um faz o que quer”, diz a especialista.

Mas só impor normas, segundo ela, pode fazer com que elas, no final das contas, fiquem no papel. “A pessoa tem de cumprir regras não porque elas foram determinadas, mas de acordo com a consciência de que tem que trata-se de algo correto”, destaca a educadora.

Fonte: Folha Dirigida