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Um novo tipo de monstro que assusta o Japão

Pais que interferem de forma exagerada na vida escolar dos filhos viram problema nacional e levam governo a agir

No encerramento do ano letivo, uma escola primária de Tóquio encenou entre as alunas a clássica história da "Branca de Neve e os sete anões", só que não havia madrasta, nem caçador e muito menos anões.

Todas as meninas faziam o papel da princesa que come a maçã envenenada.

A estranha escalação do elenco foi resultado de uma campanha feroz de mães que não aceitaram o fato de suas filhas não terem passado no teste para atriz principal da peça. Praticando uma espécie de bullying, perseguiram professores, fizeram abaixo-assinados, foram à diretoria e causaram tanta confusão que a escola cedeu, aceitando que seria injusto escolher a penas uma princesa. O episódio recente é um exemplo do excesso de interferência dos pais japoneses nas mais banais atividades da vida escolar dos filhos - um fenômeno que vem assustando educadores no país.

Alegando a defesa de suas crias, homens e mulheres aterrorizam professores, levandoos à demissão ou à depressão.

Os chamados "pais-monstros" viraram assunto nacional no Japão.

O governo de Tóquio começou a distribuir, em abril, um manual para ensinar 60 mil profissionais da rede pública de ensino a lidar com o problema. Pais que entram em choque com as escolas e superprotegem seus filhos existem em todos os lugares - nos EUA, são conhecidos como "pais-helicópteros", pois fazem um tremendo barulho e espalham poeira quando chegam - mas no Japão a questão ganhou uma outra dimensão, indicando também uma mudança de comportamento social. Trata-se de um país onde protestos não são comuns, regras são respeitadas, hierarquias são sagradas e não incomodar é uma filosofia de vida. Mas, nos últimos anos, pais silenciosos se transformaram num grupo agressivo, pronto para a guerra, atropelando um sistema de ensino antes visto como inquestionável.

O problema é que os métodos usados pelo exército de "pais-monstros" extrapolam todos os limites, em escolas públicas ou privadas.

Segundo Yoshihiko Morotomi, especialista em Educação da Universidade Meiji, uma das mais importantes de Tóquio, de 70% a 80% dos professores da província de Kanto, onde fica a capital japonesa, já se ausentaram do trabalho por licença médica, sendo que boa parte desses casos é diagnosticada como estresse e depressão (esse número triplicou nos últimos dez anos). Morotomi diz que o confronto com pais é a principal causa desses problemas e confirma que casos de suicídio entre professores também já foram registrados como consequência desse embate, no qual a escola está levando a pior.

- Há 20 anos, professores eram vistos como deuses, e as escolas eram opressoras.

Mudanças nas últimas décadas abriram mais espaço para os pais, e a maioria participa positivamente.

Mas houve um desequilíbrio e os papéis se inverteram.

Algumas escolas estão cedendo a pressões de uma minoria de pais frustrados ou psicologicamente desequilibrados - explicou Morotomi ao GLOBO, citando como exemplo pais que escondem microgravadores no uniforme dos filhos para acompanhar as aulas e contestar o que é ensinado.

A imprensa japonesa tem relatado uma série de episódios que deixam claro que a questão vai muito além de simples preocupação de pais zelosos.

Há mães que exigem que professores busquem seus filhos em casa ou lavem seus uniformes; outras obrigam o colégio a refazer o álbum de fotos escolar porque seus filhos apareceram ao lado de coleguinhas "mais bonitos"; e há ainda pressões para que competições esportivas distribuam medalhas de acordo com a expectativa dos alunos e não com o resultado das provas.

Aluno quebra vidro, e mãe culpa escola

Uma escola chegou a pedir desculpas à mãe de um menino que estraçalhou a vidraça da classe com uma pedra. A "mãe-monstra" ameaçou processar o colégio, alegando que a culpada era a professora que não havia visto que a criança levara uma pedra para a sala de aula.

- Estamos criando uma geração egocêntrica, que acha que pode tudo - alerta Morotomi, acrescentando que o problema se agravou nos últimos anos com a crise econômica enfrentada pelo Japão. - Muitas pessoas ficaram sem dinheiro e descontam suas frustrações em serviços públicos, como a educação. Os professores viraram pára-raios desse estresse.

A disputa ferrenha por vagas nas escolas mais prestigiadas também acaba provocando confrontos. A diretora de uma escola internacional de Tóquio, que pede para não ter o nome publicado, explica que as famílias japonesas dão muita importância ao status do estabelecimento, sem se preocupar com a metodologia de ensino, que nem sempre combina com a personalidade da criança. Muitas não se adaptam, e os pais culpam os professores. Como os estabelecimentos estão perdendo alunos por causa dos baixos índices de natalidade no país, acabam aceitando determinadas imposições dos pais dos estudantes.

Outra característica do Japão, diz a educadora, é a grande quantidade de mães que deixam de trabalhar para criar os filhos. Apesar de ser uma potência econômica, o Japão não valoriza a presença feminina no mercado de trabalho.

- Há mulheres que não têm outro foco a não ser os filhos e, em alguns casos, tornam-se obsessivas. Querem o melhor para as crianças, mas exercem sobre elas uma influência desproporcional. As intenções podem ser boas, mas o caminho é totalmente equivocado - lamenta.

Fonte: O Globo